quinta-feira, maio 14, 2009

CISNEIROS – LEMBRANÇAS DE UM TEMPO BOM

Por intermédio de meu sobrinho Raimundo Cerqueira Jr., no momento atarefado com os preparativos para a comemoração do centenário de nascimento de minha mãe, que o levou a pesquisar fontes de informação em Cisneiros, onde ela viveu, tomei conhecimento do trabalho desenvolvido por Ana Clara Fagundes Finamore Frederic e pelo blogueiro Joaquim Ricardo Machado para levantar, divulgar e preservar a história de Cisneiros. Este texto é a contribuição que ofereço aos louváveis esforços desses pesquisadores. Cisneiros é muito especial para nós.

Minha família. Meu pai Arthur Aarão Corrêa nasceu em Palma e, com vinte e poucos anos, mudou-se para a região de Manhuaçu em busca de oportunidade de trabalho. Possuía sólidos conhecimentos de matemática e português e rudimentos de latim e música, atributos pouco comuns em jovens do interior de Minas àquela época. Por indicação de pessoas conhecidas e após sabatinado pelo vigário que visitava mensalmente o vilarejo de São João do Manhuaçu, foi contratado pelo ex-muladeiro e, naquele momento, próspero fazendeiro e comerciante Joaquim Garcia Sobrinho para ser professor particular de seus nove filhos, de vez que a vila não possuía nenhum equipamento de ensino, quer público ou privado. Entre as alunas, estava a filha mais velha, nascida Maria Garcia dos Santos em 20 de maio de 1909. E não demorou muito, aluna e professor se casaram, ela então com dezesseis anos, adotando o nome de Maria Garcia Corrêa.

Dessa união, nasceram seis filhos. Sou o do meio. Eu me explico. Como sou gêmeo de minha irmã, a professora Marília da Glória Corrêa Baptista, tenho dois irmãos menos novos, a professora Maria de Lourdes Corrêa Cerqueira e o funcionário público Mário Lúcio Corrêa, ambos falecidos, e dois irmãos mais novos, o advogado Maurício José Corrêa e o comerciante Márcio Ângelo Corrêa, este também falecido.

A família se formava e a vila se desenvolvia, com a construção de novas casas e o estabelecimento de melhorias na precária infra-estrutura. A instalação da Escola Isolada “Professor Juventino Nunes” permitiu que minha mãe em 1928 se tornasse uma de suas primeiras professoras. Foram criados os serviços cartoriais de registro civil e meu pai assumiu o encargo de escrivão.

Em 1943 a família mudou-se para Itapiruçu e, logo em seguida, transferiu-se para Cisneiros, onde permaneceu até 1953, minha mãe sempre na condição de professora e me pai, titular do cartório local. Posteriormente, com meus pais aposentados, nos mudamos para Belo Horizonte.

Ministro Maurício Corrêa. Faço menção especial à trajetória de meu irmão Maurício José Corrêa, que, em Cisneiros, encantava as pessoas com suas brincadeiras e as músicas que executava em seu piston, especialmente na casa dos Medinas e dos Guerreiros, em pontos opostos da pracinha. Tendo estudado em colégios de Manhumirim, Miracema e Belo Horizonte, formou-se em direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais e logo se mudou para a recém inaugurada Brasília, onde recompôs seu escritório de advocacia e sua clientela deixada em Belo Horizonte. Elegeu-se Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção de Brasília, por diversas vezes, tendo construído sua sede e, durante a ditadura militar de 1964, confrontou grupos de repressão, mesmo sob ameaça de armas, na defesa das liberdades e do direito de expressão. Quando foi permitido votar em Brasília, a população local o elegeu senador federal mais votado da cidade. Exerceu o mandato até sua convocação para Ministro da Justiça, no governo do Presidente Itamar Franco. Foi nomeado a seguir para o cargo de Ministro do Superior Tribunal Federal, exercendo sua Presidência até a compulsória. Hoje, ainda em atividade, mantém seu escritório de advocacia em Brasília.

O Jardineiro. A passagem da família por Cisneiros e Itapiruçu foi marcante em nossa vida. Com família grande, os filhos freqüentando colégios em cidades distantes, meus pais se desdobravam para suportar as crescentes despesas, procurando ampliar os parcos ganhos de professora e de escrivão de poucos assentamentos. Transformaram em um incipiente hotel a casa em que residiam na Praça Dona Cecília, em Cisneiros, fornecendo pousada e alimentação a viajantes que freqüentavam a vila. Instalaram o posto telefônico local, daqueles de manivela, em cabine presa à parede, e realizavam os atendimentos e as chamadas a cobrar com serviço de mensageiro.

Minha irmã Lourdes, antes de seu casamento com Raimundo Cerqueira em 1945 na Igreja de Cisneiros, fez concurso e assumiu o cargo de professora, junto à mãe. Foi nesse período que as duas incentivaram os alunos a editarem um jornal. Minha irmã levou os alunos para conhecer as oficinas gráficas do Jornal de Palma e a idéia de fundar seu próprio jornalzinho contagiou os alunos. Foi realizado um concurso para dar nome à publicação. Entre os nomes propostos de Beija-Flor, Coração Valente, O Jardineiro, O Nosso Jornal, A Infância, Jornal Infantil e Aromas Escolares, foi escolhido por votação o de O Jardineiro. A defesa do nome vencedor foi feita pela aluna da quarta série, hoje Rosalina Maria Rola Fagundes Finamore, com argumento de que “como um jardineiro colhe flores diariamente, o jornal vai colher e distribuir informações”. Quem secretariou os trabalhos e redigiu a ata foi a aluna Lúcia Henriques Archanjo, também da quarta série, minha irmã de criação. E ela inscreveu na ata as razões da escolha: “ O Jardineiro vai recolher os melhores trabalhos, flores de nossa escola. A escola é o jardim. Não devemos nos esquecer, colegas, de que esse gracioso jornalzinho levará para bem longe as nossas flores. Trabalhemos, pois, com entusiasmo para que O Jardineiro não morra!”

Outra preocupação da professora Maria de Lourdes era conduzir os alunos a pensarem o jornal como atividade integrada à vida de cada um, com a idéia de colher assuntos a serem noticiados. Os alunos eram incentivados a participar de concursos permanentes de redação. Os trabalhos eram analisados, recebendo pontuação. Na ocasião da fundação do jornal, o destaque foi atribuído à mesma aluna Rosalina Maria Rola Fagundes Finamore e seu trabalho foi publicado no primeiro número de O Jardineiro.

Finamore. A população de Cisneiros era uma grande e integrada comunidade familiar. As famílias Fagundes e Barandier e as de Adelino Pires, João Moreira, Chico Medina, José Guerreiro, Juca Ferreira, Olímpio Homem, José Panza, Sebastião Formidável, José Titonelli, entre tantas outras, marcaram fortemente nosso convívio. Mas, quero me demorar um pouco sobre a família Finamore, chefiada pela imponente figura de seu patriarca Antonio Josino Finamore, de presença forte, com seus passos arrastados sobre chinelos. Éramos vizinhos. Finamore ocupava o cargo honorífico de Juiz de Paz, integrante da organização judiciária do estado, e mantinha constante contato com meu pai em razão de suas atribuições em atos civis, especialmente os casamentos que celebravam por força de lei. Além do mais, era um exímio jogador de bisca de dois e o parceiro constante era meu pai, em nossa casa. Exercia a profissão de comerciante de arroz e imagino que, se estivesse entre nós ainda hoje, por certo seria um arrozeiro nas várzeas da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, tal seu profundo interesse pela atividade. Era casado com Maria da Agonia Finamore e todos seus filhos, mais de uma dezena, na maioria homens, tinham nomes começados por W. A única mulher, a filha Wanylde, não fugia à regra do W no nome. O nome Maria da Agonia Finamore é o que vem à memória, embora sua neta Ana Clara Fagundes Finamore Frederic registre como sendo Agonia Alves Finamore. Por certo, a razão está com ela. Dona Agonia, vou abreviar assim, foi uma mulher extraordinária. Cuidava de sua grande família, preocupada com a educação de cada um, trabalhava como Agente dos Correios, executando todas as tarefas com esmero e cuidado, e, calma em pessoa, anotava tudo com letra clara, límpida e bem talhada. Mas, sobretudo, era uma apaixonada por livros. Como gostava de ler, incentivava o hábito da leitura. Devo a ela o interesse por livros e leitura, que me acompanha até hoje.

Molecagens. Mas, o grande mérito de Cisneiros era a vida simples e despreocupada de seus habitantes. A tranqüilidade só era quebrada quando o Wesley Fabiano, um dos irmãos Finamore, provocava o cego Domiciliano com alguma brincadeira só para ver a esperada reação com palavrões em voz alta. Ou, de meu cunhado Raimundo Cerqueira que nos acompanhou em uma traquinagem para roubar frutas do belo e variado pomar que o dentista prático Condomar possuía no final da rua Niterói, depois da ponte sobre o rio Capivara. Para alcançar o pomar, atravessamos o rio a nado, deixando nossas roupas na margem oposta ao pomar, e subindo nas árvores, especialmente nas mangueiras, iniciamos a coleta das frutas, como sempre fazíamos. Tudo era feito rapidamente para não sermos pegos e sofrer castigo. Mas, a verdade é que o dia do castigo chegou e exatamente quando meu cunhado participou da brincadeira pela primeira e única vez. Ao perceber nossa presença, o senhor Condomar mandou que um empregado desse a volta por dentro de Cisneiros e, sem ser pressentido, recolheu nossas roupas à margem do rio. Foi um vexame nosso retorno às casas, todos nus ou vestindo sumárias e molhadas cuecas, procurando se esgueirar pelos cantos, sob a vista e as chacotas de todos. Eu não vi, mas posso imaginar que o velho e bom dentista, em seu consultório com retratos na parede e a ruidosa broca movida a pedal, estivesse rindo satisfeito pela vingança contra nossas molecagens.

Centenário de Maria Garcia Corrêa. O dia de 20 de maio de 2009 marca o centenário de nascimento de minha mãe. Para celebrar a data, estamos empenhados em promover a confraternização de familiares e amigos em festa que realizaremos em Brasília no sábado, 23 de maio. A escolha da cidade de Brasília se orientou pela disponibilidade de melhor infra-estrutura e por que lá reside grande parte de seus oitenta descendentes. A programação consta de uma missa de ação de graças, a ser celebrada às dez horas, a exibição de um clipe em áudio e vídeo sobre a vida da homenageada, por volta do meio dia e, em seguida, será servido almoço comemorativo na residência dos filhos Alda e Maurício José Corrêa.

São Paulo, 13 de maio de 2 009.

Mauro Garcia Corrêa

4 comentários:

angeline disse...

Fico feliz pela atualização desse blogue que tanto admiro.
Parabéns ! Obrigada nos fornecer tão saborosas informações.

Wanderlei disse...

Ao Dr. Mauro:

Lembro-me bem do meu (falecido) pai - Joaquim Jorge Salum - falar do Sr. Arthur Aarão e de alguns de seus filhos.
Mudamo-nos para Belo Horizonte em 1962 e alguns anos depois trabalhei no escritório de um advogado, Dr. Geraldo Affonso Sant'Anna - que ao que me consta (era adolescente, na época) foi colega de consultório do Dr. Mauro.
Mundo pequeno.
Meu pai chegou a visitar o Sr. Arthur Aarão, salvo engano, no Carlos Prates.
Abraços aos cisneirenses ilustres
Wanderlei Pacheco Salum

Anônimo disse...

Prezado Wanderley,

Lembro-me muito bem de seu pai, por quem sempre tive estima. Eram dois irmãos que moraram em Cisneiros, não? Posso ter equivocado no nome, mas a simpatia e a correção de procedimentos de seu pai foram marcantes para mim. Meu pai tinha grande apreço pelo Salum e as visitas feitas a nossas casas nas ruas Bonsucesso e Monte Santo, no Carlos Prates, deram alegria a minha família. O escritório de advocacia em que você trabalhou em Belo Horizonte foi montado por mim, em associação com o Geraldo Santana, na Rua dos Tupinamabás.

Em que período vocês moraram em Cisneiros? De que localidade vocês eram quando se mudaram para lá? Qual a sua idade nesse tempo?

Espero novo contato.

Meu abraço

M. G. Corrêa

Wanderlei Salum disse...

Dr. Mauro:
Eu nasci em 1951 e saí de Cisneiros, junto com meu pai, em 1962.
A família dele era originária de lá mesmo - volta do Rio, Gibatão, depois mudaram-se para Cisneiros.
Meu avô, Mucci Jorge Salum, teve vários filhos: José(tio Juca), Jamil, Joaquim, Carmen e Jorge. Em Cisneiros, moravam, no meu tempo os tios Juca, Jamil e meu pai (estes, já falecidos).
Parece-me que seu pai teria morado num sobrado, que foi adquirido pelo tio Jamil - próximo da Estação, das linhas do trem de ferro e próximo ao Armazém da Casemg.
Meu avô, que não conheci, tinha sua orígem no Líbano.
Minha bisavó paterna, salvo engano, chamava-se Ana da Costa Finamore.
Uma pena que esse contato tenha sido feito agora, pois meu pai faleceu em janeiro passado. Com certeza, ele estaria muito feliz.
Abraços
Wanderlei Pacheco Salum