quarta-feira, novembro 08, 2006

A festa para Firmo de Araújo

No ano de 1909, várias matérias foram publicadas nos jornais do Rio de Janeiro, acusando Firmo de Araújo de estar envolvido com quadrilhas de ladrões de cavalos da região. Para reforçar seu prestígio foi organizada uma festa em 01 de junho de 1910.

Abaixo é reproduzido a matéria que foi publicada no jornal "A Matta", edição Nº 119 de 01 de junho de 1910:

Homenagem ao eminente vulto político Coronel Firmo de Araújo Pereira

Palma, hoje, num belo gesto, como quem mostra sobre o peito uma medalha de honroso apreço, digno de um valor nobilitante, o amuleto de uma afeição entranhada, desvela, no salão nobre do paço municipal, que é o seu Patheon, o retrato do Coronel Firmo de Araújo Pereira. É como instituisse ali seus deuses lares. E bem merece essa prova de carinhosa veneração quem, pelo respeito de seu valor tem se constituido o pretetorado de paz deste município. Não é isso obra fácil.

Só um punho firme, um impulso seguro na orientação da política municipal, seriam capazes do resultado a que se chegou, nos negócios públicos, de um sentir uniforme, calmo, entendido, sem os motivos alternativos das lutas de campanário e pertubadores da marcha do município. E tão poderosa é essa sua influência, tão tutelar é exercida ainda sobre as mínimas coisas, que evoca na sua feitura especial o tribunal chinês, cuja pitoresca denominação de – Thor-Thsa-Yang – o tribunal que vela sobre tudo. Os membros deste colégio usam roupas bordadas e um capacete de ferro; aqueles, para designar as honras conferidas pela sua investidura aos homens notáveis e este, a firmeza, a fria imparcialidade exigidas daqueles que o trazem. Uma bengala pintada de vermelho simboliza a sua função de justiça e ornatos de plumas de cisne branco, que os carros desses censores trazem desde a época dos Thango significa que os fatos ainda leves e de pouca monta não deverão escapar à sua atenção.

E eis como, por um acaso, que sem querer, ajustamos nos emblemas acima a vestidura moral do Sr. Firmo de Araújo Pereira, dando por esta forma a representação simbólica da nobreza de seu caracter patrício, fortemente blindado por uma fibra invencível de estoicismo e abnegação, de sua fria e rígida austeridade, dos seus sentimentos, justos e levantados e da minunciosa análise de seu espírito perspicaz, de grande penetração e longas vigílias. Na data de hoje coincide a do seu natalício, dado, às três horas e 40 minutos da manhã, no ano de 1847, na fazenda da "Mutuca", distrito dos Remédios, município de Barbacena, neste Estado. Filho legítimo do capitão Antônio de Araujo Barbosa, nasceu da exma. Sra. D. Luiza Ermelinda de Araujo, e teve por padrinhos de batismo o Major Manoel Gomes de Oliveira e sua mulher. Seus pais que eram abastados, adquiriram em 1854, neste município, a fazenda Fortaleza e para ali transferiram o seu domicílio. Em 1859, matriculou-se na Escola do professor Bartolomeu Cordovil Siqueira e Mello, em Santo Antônio de Pádua, e nela cursou até 1861 as primeiras letras. Em 1862, matriculou-se no Colégio Victor Renault, em Barbacena, iniciando então os estudos de Humanidades, os quais continuou mais tarde com o professor Tertuliano Turibio de Souza Guerra.

Há quem se lembre, seu condiscipulo, nos tempos em que colegiava em Barbacena, de sua figura distinta, esbelta, de pele alva e fina, como um dos rapazes mais bonitos daquela geração. Datam desse tempo suas relações com o Sr. Dr. Bias Fortes, seu colega de então. Consagrou sua atividade à vida agrária, sucedendo a seus pais no domínio de grandes propriedades agrícolas e constituindo-se senhor de muitas fazendas.

A fortuna que lhe afofou o berço ainda hoje o acaricia.

É um celibatário inveterado. Dizem que essa sua obstinação é devida a ter sido contrariado pelo assentimento paterno, à realização de uma pretensão amorosa. Esse fato dá bem a demonstração da constância de seu ânimo. Entretanto, não levou seus caprichos a contrariar as leis da natureza. Tem grande prole, que lhe herdaria dignamente seu nome e virtudes. Foi no vizinho Estado do Rio que começou a sua carreira política, como subdelegado do distrito de Santo Antonio dos Brotos, hoje, Miracema, após eleitor especial, para as eleições de dois graus, do colégio de São Fidélis, sede a que pertencia aquele distrito e em seguida vereador da Câmara Municipal de Santo Antônio de Pádua. Isso foi pelo ano de 1886.

As balisas que assentava, assenhorando-se do campo, estabelecendo as teias de sua ação, do lado do Estado do Rio, deveriam corresponder outras tantas, da parte de Minas, e desde 1877, o arraial do Capivara, a nebulosa Palma, começou a merecer sua atenção. Fez parte então da comissão construtora da Igreja Matriz e do Cemitério, concorrendo com valioso donativo. No período de sua formação, nos tempos heróicos, o Capivara teve sua Delenda Carthago e foi a abertura da rua que tem hoje o nome de Dr. João Pinheiro.

Um grupo de esforçados patriotas, quais o Coronel Jeremias Freitas, o major Bernardo Magalhães e outros, sustentava a campanha que durou anos perante a Comarca de Cataguases, pois bem: à frente dele estava o Coronel Firmo. O Capivara era, por esse tempo, um reduto da propaganda republicana. Uma fagulha de fogo sagrado, que deveria consumir o trono, ardia oculta nos espíritos que a dirigia. Proclama-se a República. Ele tinha o direito da participação direta e que lhe deveria valer aos seu progresso. O antigo condiscipulo do Dr. Bias Fortes, que era na ocasião o governador do Estado, parte levando uma representação do povo, para em Ouro Preto, e aos seus esforços deve-se ao decreto da criação da Vila, de cujo ato oficial foi o seu portador bem como a nomeação da primeira Intendência.

Instituindo o município de Palma, o infante tinha o direito à essa solicitude paterna, que se prolonga além da geração. Guia, oráculo, inspiração, mentor, ele o foi. O município quis se apoiar diretamente em suas mãos e desde 1900, foi o seu agente executivo, reelegendo-se sucessivamente, nas mesmas funções, até agora e para sempre.

Liberal das antigas milícias, seu espírito está sempre ao serviço das nobres idéias e a isso que se deve o ter logrado realização a fundação do Forum desta Comarca. Alma grande, é o amigo nas ocasiões difíceis. Se alguma vez teve aplicação prática, de maneira completa, inconfudível, sem falha, sem intermitência, evangelicamente, com o um preceito religioso, como um dever, ele o realiza, do provérbio – Fazer o bem, sem olhar a quem.

A hospitalidade que adoça o trinco da porta de sua casa e não se fecham a cadeado, as porteiras de sua fazenda; quem quer lhe mova, tem um amigo. É nesse particular, um mulçumano. E o acusam por isto! ... Entretanto, esse é o segredo do seu valimento, deste prestígio imenso, de suas mãos prodigiosas, a um simples aceno, surgem do chão, legiões. Mais uma consideração, concluiremos.

Filho único de pais ricos, sua vontade foi sempre obedecida, o menor capricho lhe era satisfeito. Contam que, por ver, quando menino, lhe apetecia comer as pernas de uma galinha que ele apontara no terreiro, era ela uma dessas veteranas, poupadas ao cutelo culinário e só reservada ao sacrifício, nos dias das grandes dores da Maitresse, e tanto bastava para ser imolada, sem apelação nem agravo, ao apetite infantil. Aí está como nele se cultivou a vontade persistente, que não deixa modificar facilmente seus propósitos e que em muitos pontos se ajustam, por uma intuição natural, como a de Frederico, o grande rei da Prússia, que, por ter-lhe o pai quebrado nas costas a flauta que uma vez o surpreendeu tocando, cultivou este instrumento até a velhice, e porque aprendera frances às escondidas, foi a língua que escreveu e falou até o fim de seus dias.

Quem lhe estudar o caracter, as tendência, se surpreenderá da semelhança de dois espíritos, na finura de sentimentos, na bravura cavalheiresca e também nos seus defeitos. Para confirmar este conceito, ouvimos dele, uma vez, a consideração, que com aplicação aos seus municípes, reproduzia, sem saber(coincidência admirável") a seguinte adorável frase do rei filósofo: "O meu povo e eu chegamos a um acordo que nos satisfaz a nós ambos. Ele diz tudo o que quer, eu faço tudo o que entendo".
O texto acima, foi transcrito do livro "Altivo Linhares-Memórias de um líder da velha província" de Mauricio Monteiro, Damadá Artes Gráficas - Miracema(RJ) - 1986.

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