quarta-feira, dezembro 26, 2007

Soluços
Henrique Barandier dos Santos

No rincão onde eu nasci,
Tive o meu amor primeiro,
Mas, tão cedo o perdi,
Era puro e verdadeiro.

A bela deusa morena
DE CISNEIROS a Rainha,
Tão cândida e serena
Dei-lhe amor o quanto tinha.

Sob o por d’ouro do sol
Qual um anjo ela sorria,
Era o amor ao arrebol
Que num frêmito nascia.

Seus olhos, raros brilhantes,
Roubou a luz do luar,
Tornando-a mais fascinante
vindo minh’alma iluminar.

De teu olhar a claridade,
Ametista a reluzir,
Sonhei com a felicidade
Doce luz de meu porvir.

A meiga donzela formosa
Tão mimosa e tão louçã,
Tem o perfume da rosa
Aberta ao frescor da manhã.

Seus lábios puros e subtis,
Os dentes de nível cristal,
Estojo em pérolas e rubis
Em uma face divinal.

Seu sorriso desabrocha
Com magia e esplendor,
Demonstrando a cabrocha
Da beleza o seu vigor.

Como a gazela garbosa
Tem macio o seu andar,
Suave, maliciosa
Vem ao meu coração pisar.

É a miragem deslumbrante
De minha mocidade,
É o meu sonho alucinante
De dor e de ansiedade.

Feliz quem pode esse anjo
De seu amor poder gozar,
E num abraço fremente
Em seus braços crucificar.

Quantos momentos risonhos
Daquele tempo fugaz,
Embala-me doces sonhos...
Belos sonhos de rapaz.

Um dia, se bem me lembro
Já nosso amor florescia,
Uma tarde de setembro
Fascinante ela sorria.

As margens do Pomba sentamos,
Enquanto as águas marulhavam,
Quantas juras de amor trocamos
Nossos olhos por si falavam.

Das águas ao refletir
Em seus olhos num lampejo,
Era uma santa a sorrir
Soluçando um terno beijo.

Foram só promessas vazias,
Doces quimeras e ilusões,...
Hoje, resta-me a nostalgia
Do passado, as recordações

Escrevo em linguagem sincera
O que a ela não pode dizer,
Minhas trovas tão singelas
Amenizam o meu sofrer.

Após citar a beleza
Da deusa do intenso amor,
Sinto e soluço a tristeza
De um peito, abismo de dor.

Ainda vejo em meus sonhos
Essa deusa em formosura,
Com seus trejeitos risonhos
Sorri de minha desventura.

A meiga cabocla faceira,
Que tanto amei com ternura,
com sua arrogância fagueira
Quase levou-me a loucura.

Ao seu olhar tão sereno
De argênteo palor do luar,
Tornei-me medíocre e pequeno
De tanto querer e amar.

Quando existe o puro amor,
Logo existe a confiança.
Foi bem longe o seu rigor,
vivi de fé e esperança.

Seu puro amor se acabou,
A fé morreu em meu peito,
Da esperança, nada restou
Desse pobre amor desfeito.

Ela de mim tem queixumes,
Confessou-me com rancor,
Com infundado ciúme
Ela matou nosso amor.

Com sua revolta num instante,
Destruiu a minha ilusão,
Qual um punhal flamejante
Feriu-me fundo o coração.

Hoje, desse amor fanado,
Me recordo com saudade,
Triste amor desventurado...
Do destino a maldade.

Essa folha esmaecida
Do livro de seu destino,
Triste página relida
De um menestrel peregrino.

Se pudesse me esquecer
Desse tempo a desventura,
Não trilhava a sofrer
elas sendas da amargura.

Oh!...meu Cisneiros tão caro,
Pequeno e amado rincão,
Guardas um tesouro raro
Que chegou-me o coração.

Nas asas frescas do vento
Ao baixar o sol a tarde,
Envio-te num lamento
Meu suspiro de saudade.

Corre vento alvissareiro,
Siga já sua jornada...
Levai meu beijo derradeiro
Em Cisneiros, a minha amada.

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