quinta-feira, agosto 17, 2006

O bicho Tapirussú

No livro "Historia de uma viagem a terra do Brasil" de Jean de Lery de 1578, traduzido por Monteiro Lobato e publicado pela Companhia Editora Nacional em 1926, o início do Capítulo X:

VEAÇÃO, SERPENTES E OUTROS ANIMAES MONSTRUOSOS DA AMERICA

Para começar este capitulo direi que não existe nas terras do Brasil um só animal em tudo e por tudo semelhante aos nossos, e principiarei por descrever os que os tupinambás genericamente chamam sóo e lhes servem de alimentação. O mais commum é o tapirussú de pello avermelhado e tamanho quasi igual as vaccas, mas sem chifres, pescoço mais curto, pernas mais finas, orelhas pendentes e pés de casco inteiriço como o do asno. É caso de dizer-se que participa de ambas as alimarias e é semi-vacca e semi-asno. Todavia ainda differe de ambos na cauda, que é muito curta (e noto que na America se encontram muitos animaes sem cauda) e nos dentes, que são mais cortantes e agudos.
Não é, entretanto, animal perigoso, porisso que sua defeza está na fuga.
Os selvagens os caçam a flecha ou os apanham em armadilhas feitas com muita industria. Não só pela carne, como ainda pelo couro, é muito estimado dos indios que deste se utilisam para uma especie de escudo que os defende na guerra das settas inimigas.
Com effeito, esse couro depois de secco fica tão duro que não creio haja flecha, por mais violentamente arremessada, que consiga varal-o. No meu regresso á França trouxe dois desses broqueis, mas quando a fome nos assaltou no caminho, e os viveres faltaram de todo, depois de comermos quanto bugio, papagaio e mais alimarias traziamos, tivemos que roer esses escudos tostados na braza, o mesmo succedendo com tudo que era de couro a bordo, como a seu tempo contarei.
A carne do tapirussú tem o mesmo gosto da carne de vacca, e, quanto ao modo de preparal-a, os selvagens a moqueam na forma do costume. Consiste este systema em dois pares de forquilhas, grossas como braço, fincadas no chão, em quadro, á distancia de tres pés e á altura de dois e meio; sobre ellas assentam-se varas com o espaço de uma pollegada entre uma e outra, formando uma grande grelha. É isto o moquem. Collocam em cima a carne e accendem em baixo um fogo lento, sem fumaça; vão voltando a carne de quarto em quarto de hora até que esteja bem assada.
Como não usam sal, o meio de conservar a carne é este.

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