segunda-feira, julho 31, 2006

Alves Affonso, as cruzadas e as palavras

Um dia, quando as pesquisas genéticas tiverem chegado ao seu ponto máximo, com todo o DNA humano mapeado, esquadrinhado e, enfim, decodificado, possivelmente haverá, entre um gene que define a cor do cabelo e outro que regula o tamanho do lóbulo da orelha, um genezinho discreto, porém diligente, que gerencia a propensão às palavras cruzadas. Este, certamente, será encontrado em certa família cisneirense.
Cresci vendo meu vô Tote com suas revistas A Recreativa e um velho dicionário, preenchendo sem pressa e com sua bela letra de forma os quadradinhos simetricamente dispostos nas páginas. Minha tia Agonia também era aficcionada, assim como meu pai. Meu avô, entretanto, parecia ser o mais experiente de todos. Não se limitava a “matar” as cruzadas, mas também as criava. Participava de concursos (e costumava ganhá-los) sob o pseudônimo de Cysneirense. Meu pai era Cysneirense Júnior, e eu, antes que algum aventureiro lançasse mão, me tornei, secretamente, Cysneirense Neto. Digo secretamente porque, assim como meu pai, não sou sequer cisneirense (menos ainda daqueles com o Y arcaico), e também porque meus dotes cruzadísticos não chegariam jamais a rivalizar com os do vô Tote. Só utilizei o pseudônimo nas minhas fantasias literárias, quando o Clark Kent atrás do qual eu me escondia era deixado para trás.
Do alto da minha sabedoria de criança, eu admirava a infantilidade daquele passatempo de adultos. Achava inútil o conhecimento de palavras que só serviam para que os quadradinhos não ficassem em branco. Quando, na minha vida, encontraria oportunidade para usar “RAS” (chefe etíope) ou “ARAS” (altares pagãos para sacrifício)? Se bem que, certa vez, tia Agonia teria perguntado a um dos filhos se estavam todos à mesa. A resposta foi que alguns estavam patentes, mas outros permaneciam latentes. Em que outra família, que não a de cruzadistas praticantes, se poderia ouvir tal pérola lingüística?
Passou o tempo, vieram as cruzadas diretas (que meu avô desprezava e eu, por fidelidade, jamais tive em alta conta), os diagramas perderam sua beleza gráfica, sua simetria de mosaico. Sumiram os elaborados tabuleiros em que as palavras sempre se moviam em linha reta, estancadas, aqui e ali, por casas negras, onde letra alguma pisava; em seu lugar, surgiram setas, definições imprecisas, nomes de artistas, siglas, estrangeirismos. As novas gerações, se ainda não tiverem sofrido mutação genética, talvez ainda se divirtam com essa Cruzada menor, que não tem por inimigos os sarracenos de outrora, guardiões de sepulcros onde jaziam palavras acessíveis apenas aos iniciados.
Só sei que, um dia, lendo Fernando Pessoa, me deparei com o verso “deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses” e não precisei correr ao dicionário. Ouvindo reggae, me perguntei se os rastafari não teriam algo a ver com os líderes etíopes – e tinham: o Ras Tafari, que deu nome ao movimento, era o imperador da Etiópia, Hailé Selassié. As palavrinhas inúteis se cruzando feito formigas carregadeiras mostravam, finalmente, a sua carga: palavras não morrem nunca. Hibernam, quando muito, e ficam ali, belas e adormecidas, até que o beijo de um poeta ou a mão de um cruzadista venha despertá-las.
Meu avô não fez testamento porque não tinha herança a deixar. O que eu tinha que herdar herdei em vida: o gosto por dicionários, trocadilhos, versos de pé quebrado. E, claro, o tal gene das palavras cruzadas. Aquele que fez de mim, belorizontino de nascimento, um Cysneirense - com Y e tudo.

Escrito por Sidney Eduardo Affonso

4 comentários:

Joaquim Ricardo Machado disse...

Quem dera Sidney Eduardo Affonso que o blog fosse inundado com artigos de boa qualidade, como este último que enviou.

Liliana disse...

Hermosísimo (muito muito bom!). ¿Qué pasará con los genes, ahora ...? No tengas miedo, perduran, si no en alguien de carne y hueso, en otros descendientes: las obras, los textos que ¿qué son más que tramas de palabras? Y las tramas son cruces: volvemos al origen: las palabras cruzadas, cruzadas como puentes, cruzadas como caminos, cruzadas como abrazos.
Ese abuelo ya es una presencia real, aquí.
¡El título, un hallazgo!

Sidney Eduardo disse...

Obrigado, Joaquim.
Gracias, Liliana.
Cisneiros é uma das minhas muitas Macondos, lugares do imaginário, com ponte "por onde nada mais passa", armazém que não armazena, estação de trens feita de antimatéria, igreja esvaziada, túmulo de um avô que permanece mais vivo que nunca.

Sidney Eduardo disse...

Que bom passar por aqui de novo e ler este texto, há muito esquecido e do qual receio não ter sequer uma cópia!